Tales de Mileto e a Água: Conhecer a si mesmo vem antes de entender o mundo
- Ruan Fernandes da Silva (AZTLAN)

- 11 de fev.
- 11 min de leitura

Tales de Mileto e a Água como arché:
Conhecer a si mesmo vem antes de entender o mundo
Introdução

O ser humano busca, desde o princípio de seus pensamentos reflexivos, compreender a origem da realidade, o funcionamento da natureza e o sentido da existência.
Entre os primeiros pensadores, no ocidente, a trilhar esse caminho de modo racional está Tales de Mileto, figura emblemática do nascimento da filosofia ocidental.
Mais do que propor uma explicação natural para o cosmos, Tales inaugura uma atitude intelectual profundamente transformadora: a percepção de que o modo como pensamos condiciona aquilo que somos capazes de conhecer.
Conhecer a si mesmo, portanto, não surge como exercício secundário, mas como condição indispensável para qualquer compreensão do mundo.
I. O contexto histórico de Mileto e o nascimento da filosofia

Mileto, situada na região da Jônia, era um dos mais importantes centros comerciais e intelectuais do mundo antigo.
Sua posição geográfica privilegiada favorecia o contato direto com civilizações altamente desenvolvidas, como o Egito e a Mesopotâmia, cujos conhecimentos em astronomia, matemática e engenharia já estavam relativamente avançados.
Esse intercâmbio constante produzia um efeito decisivo: a relativização das verdades herdadas exclusivamente pela tradição local.

Diante da diversidade de narrativas míticas elaboradas por diferentes povos para explicar o cosmos, emerge de modo quase inevitável a interrogação filosófica essencial acerca da verdade e da validade dessas explicações, torna-se inevitável o surgimento da pergunta filosófica fundamental:
Qual dessas narrativas é verdadeira — ou haveria algo mais profundo que todas tentam expressar?
É nesse ponto que o pensamento mítico começa a ceder lugar à investigação racional.

Aristóteles observa que a filosofia nasce do thaumázein, o espanto diante da realidade (Metafísica, I, 2).
Esse espanto não é apenas admiração, mas inquietação intelectual. Ele impele o ser humano a buscar causas, princípios e fundamentos.
Tales personifica esse momento inaugural ao confiar que o mundo pode ser compreendido por meio da razão humana, sem a necessidade de recorrer exclusivamente à intervenção dos deuses.
Segundo Diógenes Laércio, Tales afirmava que “tudo está cheio de deuses” (Vidas, I, 27).
Essa expressão, longe de reforçar o mito antropomórfico, sugere uma concepção mais sutil do divino:
O sagrado não atua de fora da natureza, mas permeia sua própria ordem. O cosmos é vivo, inteligível e dotado de estrutura interna.

Essa concepção aproxima-se de tradições sapienciais mais antigas, nas quais o divino não é caprichoso, mas manifesta-se como lei, harmonia e proporção.
Plotino, séculos depois, afirmaria que a mente que permanece fixada nas aparências jamais alcança o princípio (Enéadas, I, 6).
Tales inaugura precisamente esse movimento de retorno às causas, estabelecendo o primeiro passo da filosofia como disciplina do pensamento.
Assim, o nascimento da filosofia em Mileto não é um evento isolado, mas o resultado de uma transformação profunda da consciência humana: o momento em que o ser humano começa a confiar em sua própria capacidade de compreender a ordem do mundo — e, implicitamente, a reconhecer a necessidade de compreender também a si mesmo.
II. A mudança de paradigma: das explicações mitológicas para a razão

Antes do advento da investigação filosófica, os acontecimentos da natureza eram compreendidos predominantemente como expressões imediatas da ação dos deuses, inseridas em narrativas sagradas que explicavam o mundo por meio do sobrenatural.
Raios, tempestades, eclipses e secas eram lidos como sinais de aprovação ou punição, inseridos em narrativas simbólicas que conferiam sentido existencial, mas não permitiam análise crítica nem revisão conceitual.
Tales rompe com esse padrão ao buscar um arché, um princípio fundamental que explique a multiplicidade do real.

Aristóteles reconhece nele o primeiro pensador a investigar a causa material das coisas (Metafísica, I, 3). Ao propor a água como princípio, Tales sugere que a realidade possui unidade, continuidade e inteligibilidade.
Mesmo que essa hipótese não corresponda ao conhecimento científico atual, seu valor filosófico é imenso.
Pela primeira vez, a explicação do mundo é deslocada do plano do sobrenatural para o da natureza observável.
O cosmos deixa de ser um drama divino e passa a ser um sistema regido por leis.

A escolha da água como princípio originário não ocorre de maneira fortuita.
Trata-se de um elemento indispensável à vida, capaz de manifestar-se sob diferentes estados e de participar continuamente dos ciclos naturais.
Ao identificá-la como arché, Tales sugere que o real possui um caráter móvel, mutável e em constante transformação, antecipando uma compreensão do mundo como um fluxo contínuo, e não como uma estrutura rígida e imutável
Ao intuir que a realidade é dinâmica, fluida e transformável. Essa percepção antecipa uma visão do mundo como processo, não como estrutura fixa.

Demócrito aprofundaria essa virada racional ao afirmar que nada ocorre por acaso, mas segundo necessidade (Fragmentos, DK 68 B2).
A realidade passa a ser compreendida como ordem, e não como resultado de vontades arbitrárias.
Esse deslocamento exige uma nova ética do conhecimento: se o mundo obedece a leis, cabe ao ser humano conhecê-las com rigor e humildade.
Na tradição esotérica moderna, Helena Blavatsky afirma que a verdadeira sabedoria sempre ensinou que o universo é governado por leis universais e imutáveis (A Doutrina Secreta, v. I).
O gesto de Tales, nesse sentido, não inaugura apenas a ciência ocidental, mas reconecta o pensamento racional a uma antiga intuição sapiencial: a de que o cosmos é expressão de uma ordem profunda.
III. Por que o autoconhecimento precede a compreensão do mundo

Se o mundo é regido por princípios racionais, torna-se inevitável a pergunta sobre o instrumento do conhecimento: a mente humana.
Tales parece ter intuído que o maior obstáculo à verdade não está no objeto investigado, mas no sujeito que investiga. Por isso, segundo Diógenes Laércio, ele afirmava que “o mais difícil é conhecer a si mesmo” (Vidas, I, 27).
Essa afirmação revela uma compreensão profunda da natureza do conhecimento. Antes de examinar o mundo, é preciso examinar as lentes através das quais o mundo é visto.
Sem esse cuidado, a investigação transforma-se em projeção: o observador vê na realidade apenas aquilo que confirma suas crenças, desejos ou medos.

Sócrates faria dessa intuição o centro de sua filosofia, afirmando que uma vida sem exame não merece ser vivida (PLATÃO, Apologia, 38a).
O autoconhecimento deixa de ser um exercício moral e torna-se uma exigência epistemológica. Conhecer a si mesmo significa reconhecer limites, ignorâncias e condicionamentos.
Marco Aurélio expressa essa mesma ideia ao afirmar que a alma assume a cor de seus pensamentos (Meditações, V, 16).
Uma mente perturbada percebe o mundo de forma perturbada; uma mente rígida transforma opiniões em verdades absolutas. O autoconhecimento atua, portanto, como purificação do olhar.

A metáfora da água retorna aqui com força simbólica. Assim como a água se adapta à forma do recipiente sem perder sua essência, o pensamento filosófico precisa ser fluido.
Uma mente cristalizada em dogmas não acompanha o movimento do real. Blavatsky reforça essa ideia ao afirmar que a mente deve tornar-se tão sutil quanto o princípio que busca compreender (A Voz do Silêncio).
Além disso, o autoconhecimento funciona como vigilância do ego. Quando não observado, o ego transforma a razão em instrumento de autojustificação.
Conhecer a si mesmo é distinguir entre fato e interpretação, entre percepção e reação emocional. Trata-se de um método interior sem o qual toda investigação externa permanece incompleta.
Assim, em Tales, o autoconhecimento não aparece como introspecção isolada, mas como fundamento silencioso da racionalidade. Antes de compreender o cosmos, é preciso tornar transparente a própria consciência.
IV. O autoconhecimento como fundamento metodológico da razão filosófica

4.1 - A metáfora da água como fluidez interior
A escolha da água como arché por Tales de Mileto ultrapassa o plano físico e alcança um significado simbólico profundo.
A água é aquilo que se adapta sem perder sua natureza, que contorna obstáculos sem se fragmentar, e que, ao mesmo tempo, reflete com nitidez quando está em repouso.
Tal imagem sugere que o pensamento filosófico, para ser eficaz, deve possuir a mesma flexibilidade interior.

Uma mente rígida, presa a opiniões fixas, não consegue acompanhar a complexidade do real. Assim como a água estagnada se torna turva, o pensamento cristalizado perde sua capacidade de discernimento.
A fluidez interior, nesse sentido, não significa ausência de critérios, mas abertura à revisão, à escuta e à correção racional.
Essa metáfora indica que conhecer o mundo exige antes um estado interior adequado.
A clareza perceptiva depende da mobilidade do pensamento e da capacidade de adaptar-se às evidências.
O autoconhecimento, portanto, manifesta-se como a arte de manter o intelecto transparente, evitando tanto a rigidez dogmática quanto a dispersão irrefletida.

4.2 - A vigilância do ego e das projeções pessoais
Um dos principais entraves ao conhecimento reside na inclinação do sujeito a lançar sobre a realidade suas próprias crenças, expectativas, desejos e temores.
Quando isso ocorre, o mundo deixa de ser percebido em sua alteridade e passa a ser moldado pelas estruturas internas da consciência.
Sem o devido exame interior, aquilo que se toma por compreensão revela-se, muitas vezes, apenas um reflexo das próprias convicções e condicionamentos psíquicos.
Sem vigilância interior, o pensamento deixa de investigar a realidade e passa a confirmá-la conforme expectativas prévias.
Nesse cenário, a razão transforma-se em instrumento de autojustificação.

O autoconhecimento atua como mecanismo de distinção entre fato e interpretação. Ele permite identificar quando uma conclusão nasce de dados objetivos ou quando emerge de reações emocionais, interesses pessoais ou condicionamentos culturais.
Essa distinção é essencial para qualquer análise racional minimamente confiável.
Ao vigiar o ego, o filósofo não busca eliminá-lo, mas compreendê-lo. Trata-se de reconhecer os limites da própria perspectiva e impedir que a subjetividade se imponha como critério absoluto da verdade. Assim, o conhecimento deixa de ser uma afirmação do “eu” e torna-se uma aproximação honesta do real.
4.3 - O autoconhecimento como requisito técnico do conhecimento

Longe de ser apenas uma prática moral ou espiritual, o autoconhecimento assume, em Tales, um papel eminentemente técnico.
Conhecer a si mesmo significa compreender o funcionamento da própria mente: seus hábitos cognitivos, seus vieses, suas fragilidades e suas potencialidades. Sem esse domínio, a investigação torna-se imprecisa.
Toda metodologia científica ou filosófica pressupõe um sujeito capaz de observar com atenção, interpretar com rigor e suspender julgamentos precipitados.
O autoconhecimento fornece exatamente essa base operacional, funcionando como um instrumento silencioso que qualifica o ato de conhecer.
Dessa forma, compreender o mundo sem antes compreender o próprio observador é metodologicamente inconsistente.
O autoconhecimento surge, então, como condição prática para qualquer investigação séria, pois garante que a razão opere com clareza, equilíbrio e responsabilidade intelectual.
V. Tales de Mileto e a unidade entre conhecimento interior e compreensão do cosmos

Ao reunir razão, observação da natureza e reflexão interior, Tales inaugura uma visão integrada do conhecimento.
O cosmos deixa de ser percebido como uma realidade alheia e dissociada do ser humano, passando a ser compreendido como uma ordem inteligível que se revela a uma consciência afinada e disciplinada.
Nesse horizonte, a mente não se opõe ao mundo, mas ressoa com ele, pois ambos participam de uma mesma tessitura racional.
Conhecer o universo, assim, implica também um processo de ajuste interior, no qual a consciência se torna capaz de reconhecer a harmonia que estrutura o real.
Essa unidade revela que a busca pelo princípio do universo é, simultaneamente, uma busca pelo princípio do próprio conhecer.

Não há oposição entre investigação externa e exame interior; ambos se complementam. Quanto mais lúcida a consciência, mais inteligível o mundo se torna.
Assim, o legado de Tales permanece atual:
Conhecer a si mesmo não é um gesto secundário, mas o primeiro passo de toda filosofia.
Antes de decifrar o universo, é necessário tornar-se digno de compreendê-lo. A razão, quando enraizada no autoconhecimento, transforma-se em verdadeiro instrumento de sabedoria.
Conclusão

O legado de Tales de Mileto não se limita à sua cosmologia, mas reside sobretudo na atitude que inaugura:
Confiar na razão e reconhecer que essa razão precisa voltar-se para si mesma. Conhecer a si mesmo não é desvio da investigação do mundo, mas sua base mais profunda.

Ao iluminar o interior, o ser humano amplia sua capacidade de compreender o cosmos com clareza, humildade e sabedoria.
O ensinamento de Tales permanece, assim, como um convite permanente à lucidez.
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Amor, Luz e Paz Sempre!
Salve a Grande Luz!
Ruan Fernandes
Equipe Sol da Alvorada
Referências:
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BLAVATSKY, Helena Petrovna. A Doutrina Secreta. 6. ed. São Paulo: Pensamento, 1999. v. I.
BLAVATSKY, Helena Petrovna. A Voz do Silêncio. São Paulo: Pensamento, 2003.
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